Revista “Bons Fluidos” traz Constelação Familiar na capa

Uma das grandes bases de nosso trabalho aqui no Educando é o revolucionário trabalho do terapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger, que presenteou o mundo com as Constelações Familiares, um trabalho que nos trouxe uma nova forma de olhar para a dor da alma humana.

Por isso, foi uma grande alegria quando vimos que este tema foi destaque na Revista Bons Fluidos, pois, com certeza, os ensinamentos de Hellinger foram um pouco mais longe depois desta reportagem, que compartilhou de forma bela e cuidadosa um pouco da obra deste grande pensador.

Confira abaixo a transcrição da matéria!


É possível desmanchar os nós causados por histórias de família mal resolvidas e refazer laços. Apaziguados com a nossa trajetória, podemos seguir plenos na direção dos nossos verdadeiros propósitos

Texto: Raphaela de Campos Mello

Rogério cansou de abrir e fechar negócios. Parece que em suas mãos os empreendimentos murcham. Já Matilde coleciona uma sucessão de chefes intransigentes. Diariamente tenta atravessar muralhas. Pedro, por sua vez, vive às turras com o pai. Enquanto o problema crônico de Juliana é que, desde a adolescência, só se relaciona com parceiros do tipo demolidores – especialistas em depreciá-la.

A vida de muita gente é marcada por situações que se repetem, cutucando aquele mesmo ponto dolorido. Vira e mexe caímos na mesma cilada, como se uma força desconhecida disparasse dentro de nós a tecla repeat. Do ponto de vista da psicologia, caímos no mesmo buraco porque agimos em função de complexos inconscientes.

“A memória de vivências que trouxeram grande sofrimento para a pessoa, que no momento não tinha condições de lidar com aquilo, é aparentemente ‘apagada’ da consciência, mas fica no arquivo inconsciente”, explica a psicoterapeuta paulista Cristiane Marino. Sempre que algum evento externo tiver a menor semelhança com aquela determinada memória, esse conteúdo transborda, como para lembrar que continua vivo e atuante.

A tendência é continuar assim até cair a ficha de que é preciso interromper esse ciclo vicioso. E a melhor maneira de desatar esses enroscos é iluminando as partes nebulosas de nós mesmos através de algum trabalho terapêutico. Sob a perspectiva das constelações familiares (nome derivado do inglês constellate, no sentido de posicionar certos elementos numa dada configuração que torne a questão mais clara aos olhos de todos), os nós ocultos que governam nossas vidas, sedimentando padrões negativos, são chamados de emaranhamentos. E podem ser desfeitos, um a um.

Segundo o criador do método, o ex-padre e terapeuta alemão Bert Hellinger, que completa 90 anos em dezembro, esses emaranhamentos acontecem quando transgredimos três leis fundamentais dos relacionamentos humanos bagunçando a ordem do amor.

São elas: precedência – sempre respeitar quem chegou primeiro (pais são maiores que filhos, inclusive quando os progenitores se tornam idosos. Nesse caso, os filhos permanecem menores, mas, ao mesmo tempo, precisam atender as necessidades dos pais com zelo e humildade); pertencimento – todos devem se sentir parte do sistema (ao invés de evitar o convívio com algum parente porque destoam de nosso estilo de vida, é importante incluí-lo); equilíbrio entre dar e receber (num casal, por exemplo, ambos devem nutrir a relação com cuidados e valorização recíprocos). Encontrar obstruções desses tipos no histórico familiar e trazê-las à consciência, reposicionando algumas atitudes, é o objetivo do método terapêutico.

Para que o conteúdo inconsciente se revele, no entanto, é preciso que uma teia de relacionamentos fique explícita. Na terapia das constelações familiares funciona assim: um facilitador, em geral, terapeuta, conduz a história de um cliente dentro de workshops onde se realizam várias constelações (mecanismo que joga luz naquelas situações mais emaranhadas da vida de cada um).

Depois de contar o que a trouxe ali e de responder perguntas preliminares sobre seu contexto familiar, a pessoa escolhe entre os presentes no grupo aquele que irá representá-la, bem como seus entes queridos. E passa a observar a encenação (a técnica se diferencia do psicodrama porque os participantes não se manifestam livremente, apenas quando indagados pelo facilitador. Além disso, a compreensão do pano de fundo das dinâmicas familiares se baseia exclusivamente nas três leis do amor).

Os representantes respondem, como se fossem os personagens em questão, a perguntas simples do facilitador. Exemplo: “Seus pais estão casados a muito tempo?”. E são convidados a dizer, de tempos em tempos, como estão se sentindo – se desejam rir, chorar, fazer algum movimento, se sentem dor em alguma parte do corpo etc. O surpreendente é que, na maioria das vezes, falas, sentimentos e gestos ali externados por pessoas completamente desconhecidas do constelante (a pessoa que tem uma questão para resolver) coincidem com o jeito de ser dos entes a quem se referem.

A posição dos representantes no espaço, bem como seus sentimentos e impulsos, dão pistas preciosas. “É como se eu fosse juntando as peças de um quebra-cabeça, guiada por hipóteses que vão se confirmando até chegar ao ponto central do emaranhamento”, compara a paulista Maria Izabel Rodrigues, psicoterapeuta, consultora organizacional e ministrante de cursos de formação e workshops em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Destino emaranhado

De acordo com a teoria de Hellinger, o que acontece com um membro da família inevitavelmente afeta os demais porque todos integram a mesma rede. A dificuldade de um se reflete no outro, assim como potenciais e virtudes. Por exemplo: uma pessoa fica estagnada em solidariedade a um parente que padeceu da mesma forma no passado. “É como se disséssemos: ‘Por amor a você, ficarei triste, doente ou fracassarei’. Como se quiséssemos assumir o fardo no lugar da pessoa”, explica o médico Décio Fábio de Oliveira Júnior, cofundador do Instituto Bert Hellinger Brasil Central (IBHBC) ao lado da esposa Wilma Oliveira.

Isso ocorre porque temos a tendência a fazer pactos inconscientes com nossos antepassados, mesmo os mais distantes, nos identificando com suas dores e tentando, de alguma forma, expiá-las. Por isso, muitos repetem comportamentos destrutivos. Também são recorrentes tentativas de compensações motivadas pela culpa por alguma falta que acreditamos ter cometido. É o caso de um fi lho que se sente responsável pela tristeza da mãe e que se cobra soluções que estão muito além do seu alcance. Em ambos os casos, o problema de fundo é uma percepção distorcida da realidade. Uma vez identificado o nó, é hora de desconfundir as coisas, desmisturá-las. E de repactuar consigo mesmo algumas atitudes.

O facilitador, então, pede aos representantes que repitam frases de cura, que inspiram aceitação e gratidão por tudo o que se recebeu, do jeito que foi possível.

Costuma-se dizer: “Sinto muito por não ter dado o que você precisava receber, mas isso não tem nada a ver com o meu amor por você, e sim com as minhas dificuldades”. Ou ainda, “Eu sou a fi lha e você é o pai, eu sou pequena e você é grande” (muitos são os pais e fi lhos que invertem papéis e sofrem por isso.

Quando esse desequilíbrio hierárquico se revela, o facilitador pede que o constelante se sente num banco e fi que mais baixo do que seus progenitores para poder incorporar física e simbolicamente seu lugar na família.). “Após esses dizeres, a sensação de harmonia no sistema é intensa”, garante Maria Izabel. Não raro, algo que a pessoa jamais cogitou como causa do seu nó, emerge. A essa altura, o cliente é convidado a tomar o lugar do seu representante a fi m de sentir o campo harmonizado e absorver a força dele emanada (confira mais abaixo).

O fenômeno tem explicação: Você deve estar se perguntando: “Como alguém que desconhece o constelante e sua família pode fazer gestos e dizer coisas como se fosse a pessoa representada?”. Ou então: “Como eventos vividos por antepassados longínquos podem influenciar nossa vida aqui e agora?”. Ambos os fenômenos se explicam com a ajuda de duas teorias. A primeira é a Teoria dos Campos Morfogenéticos, formulada pelo biólogo inglês Rupert Sheldrake, autor de Ciência sem Dogma (ed. Cultrix).

O pesquisador descobriu que há uma inteligência que precede a nossa existência física e que se manifesta de maneira sutil, com forte tendência a repetir aquilo que acontece com maior frequência. “Cada vez que ocorre a repetição de um fato, esse campo aumentaria a força e a probabilidade de determinado evento ocorrer nas gerações seguintes”, diz Maria Izabel.

Uma segunda explicação parte da epigenética, ciência que estuda a ação do meio ambiente e dos pensamentos sobre a biologia. Referência nessa área, o biólogo norte-americano Bruce Lipton, autor de Biologia da Crença (ed. Butterfl y), descobriu a existência de nanorradares em nossas células. Segundo o estudioso, essa microantenas captam os conteúdos da esfera inconsciente, permitindo que dados aparentemente misteriosos alcancem a consciência.

Vidas em linha

Quando desvelados e harmonizados, os fi os embaraçados das histórias dão lugar a percepções mais lúcidas dos acontecimentos, que, por sua vez, são acompanhadas de atitudes de respeito, aceitação, responsabilidade, reverência e inclusão. “Não se trata de mágica. As constelações não solucionam automaticamente todos os problemas.

É preciso que a postura do cliente se modifique a partir de uma reformulação que vem do coração”, enfatiza Décio.

A enfermeira paulista Ana Paula Mikulenas teve o privilégio de experimentar essa possibilidade antes do falecimento do seu pai. Os dois se reaproximaram quando ele adoeceu. “Meu pai não recebeu da mãe tudo o que gostaria e acabou me colocando no lugar dela. Então eu queria resolver tudo por ele. Após a constelação, reassumi a posição de fi lha, atendo-me a esse papel, sem interferir diretamente nas demandas do meu pai.

Assim esse padrão foi gradativamente desaparecendo”, diz ela, que, desde aquele momento, passou a viver de forma mais leve e consciente.

“Ao compreender as dificuldades de nossos antepassados, passamos a sentir compaixão por eles, e desse sentimento surge a aceitação das coisas como elas são, o que nos apazigua e abre caminhos”, resume o empresário José Roberto Freitas, de São Paulo. Depois de seu fi lho descobrir que era desacreditado por ele porque ele também fora desacreditado por seu pai e este por seu avô, sua vida pôde se refazer sobre bases de compreensão entre as gerações.

Já o casal de administradores Renato e Renata Farias, também de São Paulo, aceitou a indicação da médica homeopata da família, iniciada no método, após sucessivas tentativas frustradas de gerar um fi lho. “Não tínhamos mais opções. Então, chegamos de peito aberto ao procedimento”, conta Renato.

Três meses depois, bebê à vista. “Ficou claro que havia uma interrupção do fluxo do amor entre meu sogro, um militar muito severo, filho de um homem com dificuldade de demonstrar afeto, e meu marido. Na constelação, essas relações puderam ser reparadas de alguma forma”, avalia a esposa. Segundo Maria Izabel, que conduziu o processo, inconscientemente, Renato temia reviver a história paterna com seu descendente, e a gravidez não se consumava.

Outras veredas

Intensa e tocante, a experiência, na maioria das vezes, é bem assimilada pelas pessoas. Mas há quem demande acompanhamento psicoterapêutico após a constelação. A resposta à abordagem depende muito dos recursos internos e do grau de autoconhecimento de cada um. O interessante é que quem participa representando ou apenas assistindo também se beneficia. “A motivação primordial é, em última análise, a mesma: a busca de elos perdidos ou rompidos que precisam ser reatados”, observa o psicólogo e terapeuta Reno Bonzon, francês radicado em Salvador, que recomenda a escolha de facilitadores sérios e confiáveis, de preferência indicados por pessoas que vivenciaram o processo e saíram satisfeitas.

Na observação de Hellinger, os insights e as transformações decorrentes da constelação se prolongam por até três anos. Por isso não é indicado trabalhar a mesma questão num curto intervalo de tempo. Também é possível aplicar a ferramenta no atendimento individual. Nesse caso, utilizam-se bonecos ou outros elementos de ancoragem.

Da família para outros sistemas

Por sua eficácia, a constelação, que surgiu tendo a família como foco, acabou sendo transposta para outros grupos humanos, ganhando o nome de constelações sistêmicas. Hoje esse saber beneficia empresas, escolas e até a Justiça. Para se ter uma ideia, uma multinacional recorreu ao método para sondar quais chefias estavam alinhadas aos novos valores instituídos e quais ainda apresentavam certa resistência.

Os princípios cunhados por Hellinger também norteiam a relação entre escola e pais. “Muitas questões relacionadas à aprendizagem e à desarmonia no ambiente escolar estão ligadas a desordens das leis do amor na rotina da escola”, afirma Hellen Vieira da Fonseca, consultora educacional especializada em pedagogia sistêmica, de Taguatinga (DF).

Na Justiça, o maior exemplo vem do juiz Sami Storch, atuante em Amargosa, a 235 km de Salvador. Segundo ele, que aplica a metodologia desde 2010, pais em litígio acabam encontrando saídas pacíficas após dinâmicas que levam ao reconhecimento da importância de cada membro da família. Frases reparadoras como: “Você me fez ser mãe/pai, e por isso sempre será importante na minha vida”; “Foi difícil para mim, mas reconheço que você também teve dificuldades ao longo do nosso relacionamento” abrem os canais da conciliação. E o caudaloso rio da vida volta a correr.


Transcrição original do site: http://bonsfluidos.uol.com.br/

Imagens: Pixabay, acrescentadas pelo Educando.

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